O Caderno nº 2 dos Cadernos do Caixeiral, publicado em junho de 2026 pela Liga de Estudos Críticos em Economia Política Internacional (LECEPI), propõe uma inflexão importante: ler a cultura não como pano de fundo da vida social, mas como parte ativa da produção e da disputa da ordem contemporânea. Sob o eixo “Festa, patrimônio e periferia lidos como economia política”, este número reúne reflexões que aproximam cultura, trabalho, memória, território, mercantilização e resistência.
Ao dedicar um boletim de economia política internacional a festas populares, patrimônios e culturas periféricas, este volume parte da crítica à separação entre uma esfera “dura” da política e da economia e uma esfera “leve” da cultura. O que o caderno mostra, ao contrário, é que a cultura participa diretamente das dinâmicas de hegemonia, circulação de valor, reconhecimento institucional, organização territorial e disputa simbólica.
O número se organiza em torno de três eixos centrais. O primeiro examina a festa popular como trabalho, cadeia produtiva e espaço de mercantilização, mostrando como os números do São João maranhense revelam tanto a força econômica da cultura quanto a desigualdade entre quem produz a festa e quem captura seu valor. O segundo discute o patrimônio como campo de memória e identidade em disputa, interrogando o que muda quando uma prática cultural se torna objeto de reconhecimento estatal. O terceiro volta-se à cultura periférica como território de resistência, refletindo sobre apropriação, folclorização e crítica da ordem social a partir das margens.
Além dos dossiês, o caderno amplia o debate com uma leitura de conjuntura sobre o lançamento da plataforma pública Tela Brasil, tratando o streaming como campo de disputa entre direito à cultura e lógica de mercado. Reúne também uma seção de visualização sobre o financiamento público da cultura no Brasil, evidenciando sua instabilidade e desigualdade territorial, e uma análise documental sobre a passagem do tombamento ao registro como mudança na própria linguagem institucional do reconhecimento cultural.
Mais do que um número temático sobre cultura, este caderno é um convite a pensar festas, memórias e lutas como dimensões centrais da economia política internacional. Ao fazê-lo, reafirma a proposta dos Cadernos do Caixeiral de produzir leitura crítica do presente, conectando teoria, conjuntura e experiências vividas a partir de territórios, sujeitos e práticas frequentemente colocados à margem dos grandes relatos sobre a ordem mundial.