DOI: 10.5281/zenodo.22969291
O Caderno nº 3 dos Cadernos do Caixeiral, publicado em setembro de 2026 pela Liga de Estudos Críticos em Economia Política Internacional (LECEPI), toma o Dia do Internacionalista como ponto de partida para uma pergunta que a data costuma contornar: a partir de onde o internacionalista lê o mundo, e o que esse lugar faz com a sua leitura? Sob o eixo "Profissão, lugar e hierarquia: o internacionalista e seu ofício de ler o mundo a partir da periferia", este número reúne reflexões que cruzam a história da disciplina, a formação profissional, a distribuição territorial dos cursos e os impasses da regulamentação.
Ao dedicar um boletim de economia política internacional à profissão do internacionalista, este volume parte de uma constatação: a disciplina de Relações Internacionais foi organizada a partir de centros definidos — Aberystwyth, depois as universidades estadunidenses da Guerra Fria — e suas perguntas fundadoras refletem as preocupações de quem ocupava posição hegemônica no sistema internacional. O que o caderno mostra é que essa origem não é apenas contexto histórico: ela continua a organizar currículos, hierarquias de prestígio e a própria definição do que conta como conhecimento legítimo sobre o internacional.
O número se organiza em torno de três dossiês temáticos. O primeiro reconstitui a gênese da disciplina entre o mito fundador de Aberystwyth e a consolidação estadunidense, examina as críticas que desmontaram essa narrativa e identifica o que o Sul Global herdou dela — um conjunto de perguntas formuladas a partir de preocupações alheias, mas também uma tradição própria que a narrativa dominante tendeu a apagar. O segundo examina a promessa profissional dos cursos de RI no Brasil, confrontando-a com o que se sabe sobre o destino dos egressos, o mercado de trabalho e o tipo de inserção internacional a que essa formação se vincula, com atenção particular à economia maranhense e ao que significa formar internacionalistas numa região cuja pauta exportadora se concentra em produtos primários. O terceiro propõe o Nordeste como lugar de enunciação para a pesquisa em Economia Política Internacional, discutindo paradiplomacia e inserção internacional do Maranhão.
Além dos dossiês, o caderno amplia o debate com uma leitura de conjuntura sobre o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, aberta em Nova York em 22 de setembro, tratando o que o evento revela sobre a crise do multilateralismo e o que ele não resolve. Reúne também uma seção de visualização que traduz em números a trajetória e a concentração regional da oferta de cursos de Relações Internacionais no Brasil, e uma análise documental sobre os projetos de regulamentação da profissão, lendo o que a linguagem dessas propostas decide sobre quem pode ser internacionalista.
Mais do que um número temático sobre a profissão, este caderno é um convite a pensar a formação, o lugar e a hierarquia como dimensões constitutivas do ofício de ler o internacional. Ao fazê-lo, reafirma a proposta dos Cadernos do Caixeiral de produzir leitura crítica do presente, conectando teoria, conjuntura e experiências vividas a partir de territórios, sujeitos e práticas frequentemente colocados à margem dos grandes relatos sobre a ordem mundial. O nome da publicação carrega uma memória útil: o caixeiro foi, por muito tempo, o trabalhador do comércio que ligava a economia local às mercadorias que vinham de fora e às que partiam para o mercado mundial — na maior parte das vezes, sem controlar os preços, as rotas ou as condições da troca. Cabe ao internacionalista formado na periferia decidir se será apenas intermediário competente da ordem que encontrou ou também intérprete crítico dela.